O tédio muda com a idade?
O tédio em movimento com a idade.
(O tédio é seu fiel companheiro — Lucas)
Eu era muito animado, elétrico e impaciente quando criança, o que pode ser tanto normal quanto saudável. É uma fase em que o mundo é tão misterioso e as descobertas tão frequentes que ter que ignorar tudo isso, por qualquer motivo, parece uma grande punição.
Abandonar esse instinto explorador para fazer o dever de casa, visitar um parente distante e ficar sentado escutando os adultos conversarem, até mesmo dormir ou tomar banho, praticamente tudo que exigia alguns minutos de tédio, me frustrava.
E a diferença entre a criança e o adulto, como meu primeiro ponto de vista, está na forma como se lida com esse tédio: assumindo a responsabilidade por seu próprio futuro.
Eu não posso esconder que era um péssimo aluno. Talvez tenha feito uma dúzia dos deveres de casa que recebia na escola, não muito mais do que isso em toda a minha vida.
Hoje, na faculdade, continuo sem a menor vontade de fazer o meu relatório de estágio, de estudar a matéria de sobrevivência na selva ou escutar as palestras surpresas do dia nacional do A ou do B. Preferia ler um dos meus livros, estudar algo que seja realmente do meu interesse ou simplesmente descansar.
O meu tédio é o mesmo de sempre, mas aprendi que essas coisas que me entediam fazem parte de um inevitável processo da minha formação como profissional.
Desviar disso, evitar esse tédio, é também desviar do caminho que escolhi e julguei ser o melhor para mim.
Já o meu segundo ponto de vista fala que o tédio do adulto é ainda maior que o da infância, mas, assim como um músculo se torna mais forte após ser sobrecarregado com exercícios, e passa a levantar pesos maiores com a mesma quantidade de esforço, o cérebro, após pequenos e grandes confrontos com o tédio, pode lidar com tédios maiores sem sentir um desconforto maior.
Depois de se deparar com o mesmo sentimento tantas vezes, passar por tantas filas, dias sozinhos, dias de trabalho e estudo, o tédio deixa de ser uma novidade.
O terceiro ponto de vista diz que sinto menos tédio, menos alegria, menos emoções. Quando era criança, quando monstros moravam no meu quintal, nuvens eram animais, dinossauros e dragões, quando eu tinha esperança de que me tornaria um mago que lançaria raios, o mundo em que eu vivia era especial, como um sonho.
Então você cresce, abre mão das fantasias, racionaliza cada situação, sonhos fantasiosos viram sonhos possíveis e logo sonhos pequenos.
Os sentimentos foram comprimidos, o mundo se tornou mais denso e minha imaginação menos fértil. Não posso nem mesmo sustentar a sensação de curiosidade, que é tão especial durante a infância, pois tudo é respondido em segundos através da internet.
Não me sinto tão feliz quanto antes, nem tão entediado. Enquanto as emoções da criança passam por um arco-íris de cores e a diferença entre cada uma é clara, as emoções do adulto são tons opacos e cinzas, e o tédio perdeu sua intensidade por parecer demais com todo o resto das emoções.
Talvez as três visões estejam corretas, as três erradas, ou alguma quase chegou lá, independentemente disso, elas me mostram que uma coisa é certa: não existe vida sem tédio, seja ele fraco ou intenso, esteja você uma criança, adulto ou idoso.
Dizem que a morte é nossa única certeza, mas eu diria que o tédio também é.
(Tenho uma confissão - Natti)
Eu não lembro de estar entediada na infância.
Provavelmente, eu estive, mas, não virou uma memória marcante para mim. Pode ser, porque àquela altura, eu não saberia nomear o que eu sentia como tédio ou porque, eu não me entediava com frequência.
Diferente do Lucas, eu me empolgava com a escola haahaha sempre ia atrás das pesquisas dos trabalhos, amava chegar em casa e com a ajuda da minha mãe ir fazer as atividades. Depois, já grandinha, fazia só.
Então, quando eu não estava estudando, eu estava brincando e quando não estava fazendo nenhum dos dois, estava dormindo ou comendo.
E eu sou filha única. Então, em vários momentos, eu estava mesmo sozinha, mas, juro que não me recordo de estar entediada.
Eu gostava do que fazia.
Tudo continuou no ensino fundamental, médio e faculdade.
Acho que eu não tinha sido apresentada a ele. Cansaço batia. Dormia.
Veio a pandemia. Ficar literalmente isolada foi um dura realidade. E ainda lidar com as minhas emoções dentro de quatro paredes, sem nem o céu poder ver.
Aí, eu o conheci. Já adulta.
Mas, foi por ele que apareceu novas oportunidades. Comecei a entender que eu poderia fazer mais, descobrir mais.
Em vários momentos, ele foi inevitável. Ficou ao meu lado e apesar dos pesares, acho que até curtir. Eu precisava.
O piloto automático da vida foi forçado a parar. Quase uma pane no sistema (?)
Vida voltando ao normal.
Outro baque. Minha investigação neurológica, meu diagnóstico…crises, isolamento mais uma vez. Ele com força de novo: o tédio.
E agora, ele veio pesado hahaha porque, são mais coisas que não posso fazer. E aí, eu que não o conhecia, passei a ser quase o tédio em pessoa (por dentro…porque, já não aguentava mais, não poder sair do quarto).
Ressignifiquei.
E concordo com o Lucas, a vida a adulta faz tudo parecer tão trivial, tão normal, não nos interessamos mais pelo novo, pelas descobertas e isso pode gerar uma inércia. E deixar o tédio passar batido. Que em alguns momentos, possamos utilizá-los para o nosso crescimento pessoal.
Finalizando, pelas minhas observações, o tédio vira o nosso amigo na terceira idade. Passamos a aceitá-lo com mais naturalidade. Claro que há alguns que não param suas atividades, estão sempre na ativa. Mas, eles tendem a entender a a importância de um tempinho mais “off”: - para um pouco, menino! Você precisa parar! Não é assim não… hahahah
E com vocês? Conta pra gente…qual fase da vida, o tédio mais bateu por aí? Mudou muito a sua relação com ele?







